Histórias e lendas do Vale da Vilariça PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Bruno Moreira   
Domingo, 03 Agosto 2008 09:56

 

Açucenas na Fragada (1)


A gente do Vale da Vilariça chama Fragada àquela maciça muralha de granito que vai da Junqueira à Quinta da Portela e se continua Sabor acima. De longe, parece medonho, aquele ermo de pedras povoado de cobras, raposas e javalis. Mas, em recantos abrigados, há vinhas, pomares e colmeais. Da água nem é bom falar. “Dá a sede só de vê-la”. O maior encanto da Fragada, contudo é as mil e umas estátuas esculpidas pelo tempo e as muitas lendas que por ali estão escritas.

Entre a Quinta do Zimbro e a da Terrincha, fica, lá no alto, o santuário de Nossa Senhora do Castelo. A capela de S. João ergue-se no topo do morro como um ninho de águia. O povo chama-lhe carinhosamente São Joãozinho. Era o padroeiro das maleitas. E não levava caro. Bastava o seu chapéuzinho cheio de trigo…

A capela grande fica mais em baixo num espaço terreiro. Foi ali edificado um castelo. Dizem que foram os Romanos. Vêem-se ainda vestígios das muralhas. E moedas da época foram ali encontradas. A capela de São João diz ela mesma que é do séc. XVI. Mas consta que foi moura antes de ser cristã.

Pois é no monte de São João que está escrita a lenda mais linda de toda a região. Todos os anos em Maio, florescem ali açucenas entre cana-frechas, cornalheiras e zimbros. E logo que floresce a primeira, uma fraga musgosa que dá acesso à sala dos tesouros e ao túnel que leva à ribeira, desdobra um pergaminho antigo e conta para quem quer ouvir…

“Há já muitos, muitos anos, vinha para aqui guardar o rebanho uma pastorinha das redondezas. Logo que chegava, entrava na capela e rezava à Senhora do Castelo. Dava dó, a capela! Já chovia no altar. E as raposas acoitavam-se ali de noite. Um dia Nossa Senhora sorriu-lhe. Ficou a pastorinha muito assustada! Mas logo a Mãe de Deus a sossegou: “não tenhas medo, minha filha. Gosto muito das tuas visitas. E quero pedir-te um favor. Diz ás pessoas do Vale e da Fragada que venham rezar aqui e que me componham a capela”. Perguntou a pastorinha como acreditariam nela. Mas logo a Senhora a sossegou prometendo um sinal.

Foi-se logo ela dali. E aonde não foi, mandou. No domingo seguinte muita gente veio cantar e rezar à Senhora do Castelo. Até o Sr. Padre. Com a estola e água benta, não fosse o Demónio tecê-las. Lamentavam todo o estado de abandono em que se encontrava a capela. E logo fizeram o peditório para a compor quanto antes. De repente gritou a pastorinha: “Olhem para o monte de São João”. Todos olharam. Até as ovelhas! Foi tão grande o clamor, que ainda hoje, em certas alturas, ela ecoa pela Fragada fora. O monte de São João estava todo cobertinho de açucenas! E desde então, até ao dia de hoje, sempre aqui floresceram em Maio…”

As fotografias que acompanham este texto são autênticas. Mesmo assim haverá incrédulos. Pois venham lá no próximo dia 21, terceiro domingo de Maio. Acreditarão como São Tomé. Também lá vai gente do Vale e da Fragada para celebrar a Peregrinação das Açucenas.

Nos últimos anos, os incêndios, as secas e outras causas têm diminuído a floração. Mas consta que a gente de Adeganha tem já em mãos um plano para lançar o repovoamento. Pois que o ponham em prática já no próximo ano. E contem com os muitos amigos da Senhora do Castelo.

Ó Senhora do Castelo,
Lá no cimo da Fragada
Sois a Estrela da Manhã
Que anuncia a madrugada

Ó Senhora do Castelo,
Os romeiros aqui vão
Para ver as açucenas
No Monte de São João

Ò Senhora do Castelo,
A vossa capela cheira:
Cheira a zimbro e açucenas,
A giestas e a cornalheira

P. Joaquim Leite


Texto retirado do jornal "Mensageiro de Bragança" de 25-05-2006 por Rui Vilela e aqui reproduzido com autorização do autor, Sr. Padre Joaquim Leite.

Actualizado em Segunda, 04 Agosto 2008 21:51